Urban Meyer anunciou a sua aposentadoria. E agora?

Urban Meyer anunciou a sua aposentadoria. E agora?

De certa maneira surpreendente, Urban Meyer anuncia a sua segunda saída como técnico de uma universidade por razões que em nada possuem a ver com o seu desempenho como treinador. Sua aposentadoria, que até o momento entende-se como definitiva, será logo após o Rose Bowl do dia 1º de janeiro – a primeira participação sua no Bowl oficialmente destinado para o campeão da Big Ten. Ryan Day, atual coordenador ofensivo, assume o seu lugar a partir de 2019.

Foram sete anos em Ohio State e um desempenho extremamente bem-sucedido em Columbus: pegou uma equipe que havia feito campanha negativa em 2011 (raridade para o programa) e, mesmo sob sanções, fez campanha 12-0 com a equipe logo na sua primeira temporada. Nem Nick Saban fez isso no início das suas trajetórias por LSU e Alabama. E se não fossem as sanções, possivelmente Alabama não teria destruído Notre Dame na final nacional de 2012: eles nem estariam lá.

Mas é impossível dissociar os problemas que Urban Meyer teve nos últimos meses de sua decisão precoce de aposentadoria, a quem o próprio alegou que tal se deu “por acontecimentos cumulativos”. O primeiro foi um cisto no seu cérebro, cuja situação teria piorado nos últimos meses. Problemas de saúde não são algo inédito na sua vida como treinador. Em 2009, dias após perder a final da SEC para Alabama, Meyer foi internado em um hospital de Gainesville com dores no peito e desidratação, o que posteriormente seria detectado que ele teria uma doença de refluxo gastroestofágico. A mesma doença lhe causava também severas dores de cabeça, as mesmas que o afetam atualmente. Seu problema de saúde nunca foi definitivamente curado, apenas tratado e controlado.

O segundo motivo é uma motivação recente. Em julho de 2018, vieram à tona informações de que Zach Smith, técnico assistente em Ohio State, teria agredido a sua mulher, Courtney Smith, várias vezes. Os relatos de agressões teriam acontecido em 2015. Courtney teria relatado à mulher de Urban Meyer os acontecimentos e ela informou ao comandante dos Buckeyes tais fatos.

Porém, Meyer teria ignorado tais acontecimentos e não denunciou seu assistente às autoridades competentes internas para lidar com o fato. O fato da denúncia só vir à tona em 2018 através de uma denúncia na imprensa americana – mais especificamente à Stadium – chamou a atenção. Zach Smith foi demitido e Urban Meyer foi afastado temporariamente do comando técnico no dia 1º de agosto. Após um mês de investigações, o conselho curador da universidade puniu Meyer de maneira extremamente branda: suspensão dos três primeiros jogos da temporada de 2018.

A alegação oficial para a leveza da punição foi de que Urban Meyer não teria denunciado por desconhecimento aos códigos de conduta da universidade quanto a este tipo de fato (desculpa altamente esfarrapada, mas ficou nisso). Na entrevista após o anúncio da punição, Meyer pediu desculpas… aos jogadores de Ohio State. À mulher agredida, nenhuma palavra. Ele só se desculparia a ela dias depois, certamente após receber um puxão de orelha de algum assessor interno.

Um terceiro motivo seria de que Ohio State estaria prestes a sofrer alguma sanção esportiva por alguma denúncia que estaria por vir. Porém, não há confirmação do que seria – se seria uma punição própria da NCAA pela má condução das investigações quanto ao caso de Zach Smith ou por alguma outra razão.

Legado de Urban Meyer como técnico e o seu futuro

Mesmo que Urban Meyer nunca mais venha a comandar uma equipe de futebol americano, ele já está na história do College Football como um dos melhores técnicos da história. Com um retrospecto de 186-32, Meyer é o técnico com o 3º melhor aproveitamento da história da FBS (85,3%). Conquistou três títulos nacionais: em 2006 e 2008 com Florida e em 2014 com Ohio State na temporada inaugural do College Football Playoff. O único técnico em atividade que possui mais títulos nacionais que ele é Nick Saban, com seis.

Aliás, Urban Meyer é, possivelmente, o único técnico em atividade no College Football que já enfrentou Nick Saban e não possui recorde negativo contra ele. São duas vitórias pra cada lado: Meyer venceu a final da SEC em 2008 e a semifinal do College Football Playoff de 2014, enquanto Saban levou a melhor na final da SEC de 2009 e em um jogo de temporada regular em 2010.

Contra Michigan, Meyer apresentou desempenho espetacular: 7 jogos, 7 vitórias. Venceu mesmo em ocasiões em que era considerado azarão, como 2016 e 2018. Aliás, são os torcedores de Michigan quem mais comemoram a sua saída.

Sob o seu comando, muitos ex-coordenadores seus se tornaram atuais técnicos de equipes no College Football e da NFL: Steve Addazio (Boston College), Tom Herman (Texas), Doc Holliday (Marshall), Dan Mullen (Florida), Charlie Strong (South Florida), Kyle Whittingham (Utah), Mike Vrabel (Tennessee Titans) e… Ryan Day, o futuro técnico dos Buckeyes.

Aos 54 anos, Urban Meyer, provavelmente seus problemas de saúde o estão preocupando de maneira severa, o que deve ter motivado a sua aposentadoria. Porém, caso se recupere deste problema, é bem provável que Meyer se desaposente e aceite proposta de alguma outra faculdade de ponta em 2 ou 3 anos. Meyer ainda é muito novo para parar de vez e sabe disso, mas atualmente ele quer focar na sua recuperação de saúde. Vale lembrar que Meyer saiu de Florida em 2010, ficou o ano inteiro de 2011 “parado” e acertou com Ohio State em 2012.

Consequências para Ohio State com a saída de Urban Meyer

O primeiro impacto que Ohio State sofrerá é no recrutamento. O próprio Urban Meyer em si já era um imã para atrair recrutas que não estará mais presente no programa. Poucas horas após a aposentadoria de Meyer, o cornerback 4 estrelas Lejond Cavazos anunciou seu descompromisso inicial feito com Ohio State.

Óbvio que há uma desconfiança natural a respeito do desempenho de Ryan Day como técnico. Mesmo tendo ido bem como interino nos três jogos iniciais em que Meyer esteve suspenso, agora é a primeira vez que ele agirá como treinador principal e efetivado – e logo em um dos maiores programas do College Football. Por esta razão, a temporada de 2019 será extremamente importante para os Buckeyes realmente mostrarem quem manda na Big Ten. Uma campanha fraca no ano que vem pode repelir alguns recrutas e complicar a manutenção e, em caso de queda de desempenho, a volta ao topo. Ryan Day terá esse duro desafio para lidar.

Em termos de desempenho dentro de campo, o ano de 2019 não será fácil também. Provavelmente sem Dwayne Haskins, que deve ir para o Draft, Day terá o duro desafio de desenvolver Tate Martell, que até aqui não tem empolgado em termos de desempenho. Também terá que lidar com o fato de não ser considerada favorita para a divisão leste da Big Ten, onde a equipe lida com outros times de bom nível, como a rival Michigan, Penn State e Michigan State. Fazer uma campanha 8-4 ou 9-3 será considerada aceitável para 2019, embora também possa ser vista como decepcionante.

Os torcedores de Ohio State torcem para que a equipe não tenha o mesmo destino que Florida nos anos pós-Urban Meyer: de 2011 a 2018, a equipe teve duas campanhas negativas, perdeu para uma equipe da FCS e ainda tenta se reencontrar com o caminho das vitórias.

Foto: Matthew Stockman/Getty Images

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felipe-michalski

Estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria e criador do College Football Brasil. O College Football é uma loucura, então não tenha problemas cardíacos. Go Vols!